As boas práticas ambientais garantiram-lhe lugar de destaque no circuito global, mas o Boom Festival ainda não é apreendido na totalidade em Portugal. No fim-de-semana, depois de duas mortes, existiu quem acusasse a organização de opacidade. Mas quem o conhece por dentro elogia-lhe a transparência.


Durante a manhã existe quem faça ioga, meditação, tratamentos de bem-estar orientados por terapeutas, contacto-improvisação, ou quem mergulhe na barragem e dance na tenda principal (dance temple) ao som do trance psicadélico, podendo optar por outras sonoridades electrónicas mais expansivas no alchemy circle, ou abandonar-se a harmonias ambientais nos chill-out gardens, aí ficando tranquilamente. À tarde o calor aperta. Procura-se sombra, apanha-se sol nas margens da barragem ou nada-se, assiste-se a uma das muitas conferências ou palestras na tenda liminal village, ou vai-se à área onde estão expostas obras com o cunho da cultura psicadélica. Os mais afoitos a caminhadas, ou os que possuem bicicletas, podem deslocar-se a um dos limites do recinto ao bar Funky Beach

Quando o dia começa a dar lugar à noite, o quase silêncio reina. O dance temple deixa de se ouvir. Ouvem-se gritos das brincadeiras das crianças. Contempla-se em celebração o pôr do sol. À hora de jantar as zonas de restauração enchem-se e quem quiser um hambúrguer não terá dificuldades, mas prevalecem os sabores exóticos globais ou iguarias do concelho de Idanha-a-Nova. A essa hora já começou a operar o palco sacred fire onde se podem ver concertos de nomes como Tó Trips & João Doce, Fandango, HHY & The Macumbas ou Fogo-Fogo, com o afro-beat a misturar-se com o fado ou o semba, perante um público com disponibilidade para tudo dançar.

Durante a noite os diversos espaços enchem-se, mas até pode ser num recanto da floresta que acontece um espectáculo improvisado, juntando dezenas em redor de alguém com uma guitarra ou uma bailarina que dança entre as árvores. Vislumbram-se vultos, a iluminação é ténue, alguma dela provinda das esculturas que todos os anos são criadas por artistas de todo o mundo.

Em geral sente-se civismo, diversão, respeito pela natureza, ausência de agressividade, criatividade na concepção do lugar, aposta em novas tecnologias de projecção de som e imagem e um misto de segurança e liberdade, perceptível até na forma descontraída com que a maioria se apresenta, de tronco desnudado. Não há publicidade. É um evento de pessoas para pessoas e não de marcas para consumidores. Existe a tentativa de pensar o mundo para lá dos padrões do mero entretenimento e uma sensação de espaço, o que não espanta pela área que o Boom Festival ocupa, na margem direita da albufeira de Idanha, distrito de Castelo Branco, na Herdade da Granja, com 150 hectares.

De 11 a 18 de Agosto é o paraíso na terra? Não é isso, claro. O pó por vezes entranha-se e o cheiro das casas de banho nem sempre é agradável, apesar dos sistemas de filtragem das águas que melhoram o saneamento. Da mesma forma, quem for mais sensível à visão de corpos nus a banharem-se ou quem acha possível não encarar com pessoas que podem revelar sintomas de estarem sob o efeito de substâncias aditivas, no contexto de um ambiente recreativo onde circulam cerca de 35 mil indivíduos de 162 nacionalidades, mais vale ficar por casa.

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